
A investigação judicial sobre supostos casos de violência contra migrantes em Ceuta ganhou novo impulso na segunda-feira, quando o hospital universitário da cidade enviou mais de 20 relatórios médicos de lesões ao juiz responsável. Cada dossiê identifica a vítima e detalha ferimentos que os pacientes afirmam terem sido causados por patrulhas militares espanholas durante operações noturnas em acampamentos informais. Um homem de 30 anos foi diagnosticado com múltiplas contusões "compatíveis com golpes de objetos alongados"; um jovem de 17 anos apresentou marcas semelhantes a chicotadas “compatíveis com um cinto”. Segundo a legislação espanhola, os profissionais de saúde devem comunicar à justiça sempre que atendem ferimentos que possam configurar crime. Até agora, os investigadores tinham dificuldade em localizar vítimas para confirmar os relatos coletados por ONGs nas redes sociais. A documentação hospitalar — com datas, horários e assinaturas dos médicos — oferece aos promotores um roteiro para convocar testemunhas e cruzar os registros das patrulhas militares. A ministra da Defesa, Margarita Robles, ordenou uma investigação interna pelo Comando Conjunto de Operações, mas não divulgou os resultados. Advogados de direitos humanos destacam que a Espanha, como membro da UE, tem a obrigação de investigar de ofício qualquer denúncia credível de tortura ou maus-tratos por agentes estatais. Se confirmados, os casos podem expor o Ministério da Defesa a processos civis e complicar a tentativa de Madrid de obter fundos adicionais da UE para gestão de fronteiras. Para as empresas que atuam no enclave — um importante polo de livre comércio — a controvérsia aumenta a incerteza operacional já causada por fechamentos pontuais de fronteiras e bloqueios de segurança. As equipes de mobilidade devem acompanhar os desdobramentos judiciais, pois eventuais acusações podem levar a novas operações ou restrições que afetem o trânsito de funcionários entre Ceuta e o território continental espanhol.
Fonte: El País