
A votação do Parlamento Europeu em 17 de junho para aprovar o tão debatido Regulamento de Retorno completa o novo Pacto de Migração e Asilo da UE. O regulamento obriga os requerentes de asilo rejeitados a cooperar com as autoridades, permite a detenção por até 30 meses e — o mais controverso — autoriza os Estados-membros a transferir migrantes para centros de deportação em países terceiros. A Espanha quebrou o consenso com os outros grandes Estados-membros e foi o único a votar “não” de forma clara no Conselho. Madrid argumenta que a detenção extraterritorial viola direitos fundamentais e exporia a UE a custosas batalhas judiciais. Em uma carta enviada aos embaixadores da UE na semana passada, o Secretário de Relações Exteriores espanhol, Fernando Sampedro, alertou que instalações ao estilo “Guantánamo” prejudicariam a reputação da Europa em direitos humanos e criariam complicações logísticas para os países de fronteira que já abrigam grandes centros de acolhimento. Para empregadores que transferem funcionários sob o regime ICT da UE, Cartão Azul ou vistos intraempresariais, a posição da Espanha pode ser decisiva. Se Madrid se recusar a usar os campos em países terceiros, as estadias prolongadas na Espanha continuarão a ser tratadas dentro do território espanhol, conforme as regras atuais de ordens de retorno, reduzindo o risco de que os trabalhadores sejam enviados para centros remotos com supervisão consular mínima. No entanto, as multinacionais devem se preparar para uma aplicação divergente da norma no bloco e considerar prazos mais longos para o processamento de autorizações de residência, já que outros países redirecionarão recursos para o novo sistema. Consultores de imigração destacam que empresas com planos de transferências pan-europeias precisarão acompanhar quais jurisdições adotam os campos, atualizar protocolos de conformidade para trabalhadores destacados e começar a avaliar fornecedores em países — principalmente na África do Norte e Oeste — que estão sendo convidados a sediar essas instalações. Equipes de análise de risco de viagem também devem ficar atentas a possíveis retaliações de países de origem que rejeitam a devolução de seus nacionais sob a nova caixa de ferramentas de sanções por vistos da UE. No curto prazo, a rejeição da Espanha é mais simbólica; o regulamento ainda pode entrar em vigor após a ratificação pelos parlamentos nacionais. Contudo, a posição do governo espanhol coloca o país como um contrapeso interno na UE às políticas mais rígidas e pode influenciar o desenho operacional das missões de retorno da Frontex no corredor do Mediterrâneo.
Fonte: El País